Países Emergentes Superam EUA, UE em Investimentos Industriais Renováveis
Os países emergentes do “novo cinturão industrial solar”, liderados por Índia, Brasil, Egito e outros, já detêm 59% de um pipeline de US$ 1,6 tri em projetos verdes, superando EUA e UE em ritmo de expansão.
Introdução
O mais recente relatório “Indústria Limpa: Tendências de Transformação”, elaborado pela Mission Possible Partnership (MPP) e pelo Acelerador de Transição Industrial (ITA), revela um cenário em rápida transformação no setor de energia limpa. Em um mundo cada vez mais pressionado pela crise climática, os países emergentes estão se posicionando como líderes estratégicos no investimento em indústrias sustentáveis, desafiando a hegemonia de potências como Estados Unidos e União Europeia.
Panorama global de investimentos em 2024
Em 2024, os investimentos globais em projetos industriais de energia limpa alcançaram US$ 250 bilhões. A China continua liderando esse movimento, com 25% do total, enquanto os Estados Unidos responderam por 20% e a União Europeia, por 15%. O restante foi distribuído entre países emergentes, que, apesar de terem menos recursos disponíveis, demonstram maior crescimento proporcional e um enorme potencial de expansão.
O surgimento do novo cinturão industrial solar
O relatório destaca a formação do chamado “novo cinturão industrial solar”, uma rede crescente de países localizados na Ásia, África e América do Sul, com destaque para Índia, Egito e Brasil. Esses países estão alavancando vantagens naturais — como alta incidência solar, disponibilidade de terras e acesso a minerais críticos — aliadas a políticas públicas favoráveis e custos de produção mais baixos. Este ecossistema está atraindo investimentos em escala, criando um novo polo global para a indústria de energia renovável.

Destaques por país: potências emergentes
Indonésia e Marrocos são dois dos exemplos mais notáveis, juntos responsáveis por 20% dos investimentos em fábricas de energia limpa entre os emergentes. Esses países vêm adotando políticas de incentivo, atraindo empresas globais interessadas em produzir com menor pegada de carbono e maior competitividade econômica. A África e o Sudeste Asiático se destacam como novos centros de inovação industrial verde.
Crescimento do mercado de amônia verde
A amônia verde vem ganhando destaque como uma das principais apostas na transição energética. Utilizada como fertilizante e combustível alternativo, a amônia verde permite substituir versões fósseis (cinza), altamente emissoras. Segundo o relatório, mais de 75% da capacidade comercial planejada está localizada no cinturão emergente. A queda dos preços da energia renovável e dos eletrolisadores nesses países pode tornar a amônia verde mais barata que a cinza até 2035, inclusive com preços até 50% inferiores aos praticados na Europa ou nos EUA.
Tamanho e potencial do pipeline industrial global
O relatório identificou um pipeline global de projetos industriais sustentáveis não financiados, totalizando US$ 1,6 trilhão. Destes, 59% estão concentrados nos países do novo cinturão industrial emergente, contrastando com os 18% nos EUA, 10% na União Europeia e apenas 6% na China. O dado reflete não somente o interesse crescente por parte dos investidores, mas também o reposicionamento geopolítico desses países no cenário da economia verde.
Setores envolvidos na transição
Os projetos industriais limpos abrangem uma ampla variedade de setores. Entre os mais estratégicos estão o aço, o cimento, o alumínio, os produtos químicos e a aviação. Particularmente promissores são os segmentos de amônia verde e combustíveis de aviação sustentáveis (SAF), que vêm recebendo atenção crescente por sua capacidade de descarbonizar setores difíceis de eletrificar diretamente.
Status atual dos projetos
Até o momento, 823 plantas industriais foram registradas em 69 países. Destas, 69 já estão operacionais, 65 obtiveram financiamento garantido e 8 atingiram decisão final de investimento (FID) nos últimos seis meses. Os 692 projetos restantes continuam em busca de financiamento, demonstrando um vasto campo de oportunidades nos próximos anos.
Aceleradores econômicos e tecnológicos
Dois fatores principais impulsionam o avanço desses projetos: a redução acentuada dos custos de eletricidade renovável e a queda nos preços dos eletrolisadores — equipamentos essenciais na produção de hidrogênio verde e seus derivados. Esses avanços tecnológicos tornam economicamente viável a instalação de plantas industriais em locais até então considerados periféricos.
A transição energética como vetor de desenvolvimento
Para os países emergentes, a industrialização limpa representa uma chance única de “saltar etapas” de desenvolvimento, evitando a dependência de modelos econômicos intensivos em carbono. Com isso, é possível promover crescimento econômico sustentável, gerar empregos qualificados e construir uma base industrial competitiva, sem reproduzir os erros ambientais do passado.
Oportunidades de exportação para países emergentes
A ascensão da demanda global por commodities limpas cria novas oportunidades de exportação para esses países. Produtos como amônia verde, SAF e aço verde podem se tornar bens estratégicos nos mercados internacionais, favorecendo países que investirem desde já em cadeias de valor sustentáveis e de baixo custo.
Impactos sobre a segurança alimentar
A amônia verde, por ser um insumo crucial para fertilizantes, pode desempenhar um papel vital na segurança alimentar global. Países que dominarem sua produção sustentável terão maior autonomia agrícola e poderão abastecer mercados regionais e internacionais, mitigando riscos associados a cadeias globais vulneráveis e flutuações nos preços dos insumos fósseis.
Estabilidade energética e soberania
Ao reduzir a dependência da importação de combustíveis fósseis, os países emergentes aumentam sua resiliência energética. Isso fortalece sua soberania, permitindo que planejem e operem suas matrizes energéticas de forma mais eficiente, segura e alinhada com metas climáticas.
Desafios a superar
Apesar do potencial, há obstáculos relevantes: a escassez de financiamento acessível, lacunas em infraestrutura, logística precária e carência de mão de obra qualificada. Superar esses desafios exigirá apoio internacional, financiamento climático e programas robustos de capacitação tecnológica.
O papel das políticas públicas
Incentivos fiscais, marcos regulatórios estáveis e políticas industriais pró-clima são fundamentais para acelerar essa transição. Além disso, a cooperação internacional, tanto financeira quanto tecnológica, será essencial para viabilizar a revolução industrial verde nos países em desenvolvimento.
Conclusão
O mundo está assistindo ao nascimento de um novo eixo industrial, liderado por países emergentes que combinam ambição climática, recursos abundantes e vontade política. O “novo cinturão industrial solar” representa não apenas uma resposta à crise ambiental, mas também uma oportunidade histórica de transformação econômica e geopolítica. Se bem-sucedida, essa reconfiguração poderá moldar um futuro mais justo, sustentável e próspero para bilhões de pessoas.



