Austrália lança primeira taxonomia de finanças sustentáveis, incluindo mineração

A Austrália lançou sua primeira taxonomia de finanças sustentáveis, pioneira ao incluir o setor de mineração com critérios ambientais e sociais rigorosos.

Contexto e motivação

Após dois anos de consultas lideradas pelo Australian Sustainable Finance Institute (ASFI), em parceria com o governo e o setor financeiro, a Austrália lançou oficialmente, em 25 de junho de 2025, sua primeira taxonomia nacional de finanças sustentáveis. Diferente de outras estruturas internacionais como a da União Europeia, considerada padrão-ouro, o modelo australiano aborda diretamente o setor de mineração, uma lacuna importante em economias dependentes de recursos minerais.

Escopo e abrangência

A regra inaugural foca inicialmente em quatro minerais críticos para a transição energética: cobre, lítio, níquel e minério de ferro. A taxonomia define dois tipos principais de atividades:

  • Verdes: aquelas com emissões já compatíveis com metas de neutralidade de carbono.
  • De transição: operações que ainda não atingiram tais metas, mas estão implementando mudanças significativas, como eletrificação de frotas ou substituição de geradores a diesel por fontes renováveis.

Além da mineração, o documento também estabelece critérios para agricultura, manufatura, geração de energia, construção civil e transporte.

Critérios ambientais e sociais pioneiros

O modelo australiano se diferencia por suas diretrizes rigorosas. Proíbe explicitamente operações de mineração movidas a carvão no local e exige o engajamento com povos indígenas, bem como a gestão ativa de patrimônio cultural. Enquanto outras jurisdições, como Singapura, permitem certas concessões para combustíveis fósseis, a Austrália optou por uma abordagem científica e socialmente responsável.

Fase piloto e adoção pelo mercado

Para testar a efetividade da taxonomia em cenários reais, o ASFI estabeleceu parcerias com as maiores instituições financeiras do país: ANZ, Commonwealth Bank, NAB, Westpac, Rabobank, HESTA e Rest Super. Esses projetos-piloto visam adaptar e refinar os critérios, ao mesmo tempo, em que aumentam a confiança dos investidores na ferramenta.

Impacto no mercado de dívida sustentável

Segundo a agência Sustainable Fitch, o nível de detalhamento setorial introduzido pela taxonomia australiana possibilita que setores de difícil descarbonização, como mineração e agricultura, acessem com mais segurança os mercados de títulos sustentáveis. Isso pode ampliar significativamente o volume e a liquidez de emissões rotuladas no mercado interno.

Repercussão internacional

A nova abordagem australiana já chamou atenção de outros países mineradores, como Chile, Indonésia, Canadá e África do Sul, que consideram adaptar o modelo às suas realidades nacionais. Na Europa, a Comissão propôs incluir oficialmente o lítio, níquel e cobre em sua taxonomia, evidenciando uma aproximação entre as estruturas regulatórias.

Perspectivas futuras

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda por minerais críticos para a transição energética deve crescer 3,5 vezes até 2050, atingindo cerca de 3,5 bilhões de toneladas anuais. Nesse contexto, a taxonomia australiana chega em momento decisivo para canalizar capitais rumo a projetos sustentáveis de mineração e infraestrutura limpa.

Segundo Guy Debelle, co-chair do comitê técnico do ASFI, o documento representa um “guia alinhado à ciência” que permite aos investidores tomar decisões robustas e embasadas em relação à descarbonização.

Conclusão

Com sua primeira taxonomia de finanças sustentáveis, a Austrália inaugura era na regulação financeira voltada à sustentabilidade. Ao incluir critérios ambientais rigorosos, responsabilidade social e foco em setores historicamente complexos como a mineração, o país não apenas avança sua própria agenda climática, como também estabelece um modelo de referência global para economias baseadas em recursos minerais.

Douglas Andreo

Douglas Andreo

Douglas Manoel Oliveira Andreo é pesquisador e especialista em Bioenergia, mestrando em Engenharia de Bioprocessos e Bioprodutos pela Unesp e graduando em Tecnologia em Biocombustíveis pela Fatec. Sua expertise técnica une rigor acadêmico, com ênfase em pesquisa científica sobre Biogás, à vivência corporativa industrial adquirida na Bunge. Alumni do Aspire Leaders Program e participante ativo de congressos da UDOP, Douglas integra conhecimento em economia circular com responsabilidade social, atuando também como voluntário na ONG OCAS.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *